Da camisa 9 para o terno e gravata: Ronaldo vira embaixador do Timão
Presidente e Fenômeno se reunirão com patrocinadores para discutirem mudanças no contrato após o anúncio da aposentadoria
(Foto: Reuters)
Ainda nesta semana, Ronaldo, o presidente Andrés Sanches e pessoas que comandam o maior patrocinador do Alvinegro se reunirão para discutir o que fazer. O grupo já anunciou, em nota oficial, que continuará patrocinando o clube até o fim do Paulistão de 2012, como está no primeiro contrato firmado entre as partes.
Uma cláusula, porém, pode afetar diretamente os cofres corintianos e do ex-atleta. O vínculo prevê uma nova discussão dos valores caso Ronaldo parasse de atuar antes do previsto – a intenção dele era pendurar as chuteiras em dezembro de 2011. A empresa paga mais de R$ 40 milhões anuais ao clube. O Fenômeno fica com cerca de R$ 18 milhões.
Para evitar uma redução, o Corinthians se apega à continuação da parceria com o ídolo. Ronaldo seguirá ligado ao clube participando de eventos e outras atividades. A partir de agora, ele atuará como um embaixador alvinegro no Brasil e no exterior. O desejo de Andrés Sanches é de que toda a fama dele aumente a visibilidade do clube fora do país e, quem sabe, atraia novos investidores.
- Não muda nada até o final do ano. Continua tudo igual entre Corinthians, Ronaldo e Neoquímica – garantiu o mandatário.
Ideia do departamento de marketing, a estratégia para contratar Ronaldo rendeu críticas e elogios ao Corinthians. De um lado, o Timão elevou consideravelmente suas receitas com patrocínios e ganhou mais projeção internacional. Do outro, viveu refém de ter que manter Ronaldo atuando mesmo quando já não tinha mais condições.
- Só tenho a agradecer ao Ronaldo por tudo o que ele fez. Ele não era só jogador, era um parceiro, é parceiro, nos ajudou muito. Ele colocou o nome do Corinthians lá fora, onde nunca imaginávamos estar.Triplicamos patrocínio, a receita, ganhamos campeonatos e perdemos campeonatos – disse Sanches.
Ronaldo usará a 9ine, empresa criada por ele e outros sócios, para atrair novos investidores ao Corinthians. O Fenômeno também poderá intermediar negociações internacionais, como já aconteceu com Elias e o acordo com o Atlético de Madri-ESP.
- Eu serei uma espécie de embaixador institucional, levando o nome do Corinthians para fora e ajudando cada vez mais para captar recursos.
15/02/2011 09h30 - Atualizado em 15/02/2011 09h30
Herdeiro da camisa 9 de Ronaldo, Liedson já mostra liderança no grupo
Autor de dois gols na estreia contra o Ituano, atacante reclamou da falta de pontaria no empate sem gols com o Paulista, domingo
(Foto: Daniel Augusto Jr. / Ag. Estado)
Insatisfeito com o rendimento no último domingo, em Jundiaí, Liedson mostrou que vai ajudar a liderar o grupo, como fazia Ronaldo. Não à toa cobrou melhor pontaria de todos os jogadores, inclusive dele mesmo, que perde duas oportunidades incríveis diante do Paulista por falta de força na hora do chute.
- Criamos muitas oportunidades, mas não conseguimos marcar. Não basta só criar, é preciso finalizar bem também – declarou o atacante corintiano.
Liedson ainda está em fase de adaptação em seu retorno ao Brasil. Afinal, foram sete temporadas seguidas no futebol português.
- Não estava mais habituado com o calor que faz aqui. Mas vou precisar me adaptar rapidamente. Tenho de superar isso – completou o camisa 9.
Nesta quinta-feira, contra o Mogi Mirim, no Pacaembu, em partida atrasada da quarta rodada do Campeonato Paulista, Liedson será mais uma vez titular. É a terceira partida seguida do atacante, que tem formado dupla de ataque com Jorge Henrique, outro xodó da torcida corintiana.
15/02/2011 07h45 - Atualizado em 15/02/2011 07h45
Ronaldo quer se despedir com um jogo pela Seleção Brasileira
Craque vai procurar a CBF para que a última partida seja com a 'amarelinha'
Vou procurar o presidente Ricardo Teixeira para que seja num jogo da Seleção Brasileira"
Ronaldo
O craque irá procurar a CBF para tentar viabilizar a ideia.
- Quero fazer uma festa bem bonita. Vou procurar o presidente Ricardo Teixeira para que seja num jogo da Seleção Brasileira - disse Ronaldo, em entrevista exclusiva à TV Globo.
O próximo amistoso do Brasil está marcado para o dia 4 de junho. Será contra a Holanda e muito provavelmente terá a cidade de Goiânia como palco. A CBF ainda não confirmou o local.
- Eu queria reunir jogadores que tiveram comigo e atuar para o público que me amou e me apoiou. Essas pessoas merecem uma despedida.
Pela Seleção, Ronaldo disputou quatro Copas do Mundo, ganhou duas e entrou para o livro dos recordes como o maior artilheiro na história dos mundiais.
ADEUS, RONALDO: confira a página especial sobre a despedida do Fenômeno
14/02/2011 02h45 - Atualizado em 14/02/2011 10h22
Ronaldo, um Fenômeno também em colecionar adversidades
Gols, títulos e fama se confundem com contusões e histórias polêmicas
Quando saiu de Bento Ribeiro, ainda franzino, de chuteira na mão, para dar os primeiros chutes no São Cristóvão, Ronaldo não imaginava que ganharia o mundo na forma de Fenômeno. Na briga com os zagueiros, quando estava bem fisicamente, chegava na frente, seja pela técnica ou pela força física. Foram essas virtudes aguçadas que lhe renderam dinheiro, fama, mulheres, títulos, gols, muitos gols, que o consagraram por três vezes como o maior jogador do planeta, o tornaram bicampeão mundial pela Seleção Brasileira - como calouro em 1994 e herói em 2002 - e ídolo nos clubes por onde passou.
Mas tal como a velocidade com que surpreendia os adversários, o Fenômeno mostrou, em todos esses períodos, a ambiguidade que o marcou. Nos mesmos clubes em que foi ídolo, acabou também contestado. Foi amado e odiado pelas mesmas torcidas. Na Seleção Brasileira, se foi bicampeão mundial, saiu como vilão em outras duas Copas - em 1998, a convulsão horas antes da final contra a França teria deixado o time atônito, e em 2006 os quilos e farras a mais na Suíça e na Alemanha teriam desarticulado a concentração em torno da disputa.
Após os sérios problemas com o joelho, especialmente no Inter e no Milan, foi considerado incapaz para a volta ao futebol. Seja por jornalista, seja também por médicos entrevistados. E se não bastassem os problemas dentro de campo, fora dele o craque mostrava vida de um pop star típico de anos 60. Naquele tempo, as palavras de "ordem" - na verdade, desordem - da rapaziada eram sexo, drogas e rock and roll. O roteiro da vida de Ronaldo daria um filme e tanto de uma figura polêmica: problemas com o peso, no casamento, acusações de envolvimento com travestis e drogas, discussões com ídolos e dirigentes, mau relacionamento com a imprensa.... O sucesso para Ronaldo não surgiu apenas em forma de glória.
Logo em 1993, quando começou a se sobressair no Cruzeiro e chamar a atenção com apenas 16 anos, Ronaldo viveu paralelamente glória e calvário. Marcou 12 gols em 14 partidas no seu primeiro Brasileiro, entre eles aquele em que enganou o goleiro uruguaio Rodolfo Rodríguez, ao roubar-lhe a bola num lance de malandragem ao melhor estilo de Pelé. Sagrou-se artilheiro da Supercopa da Libertadores, com oito gols. Mas na primeira decisão, pela Recopa Sul-Americana, contra o São Paulo, viveu seu primeiro revés, ao ver o goleiro Zetti defender sua penalidade e os tricolores levantarem o título.
Na Holanda, joelho começa a incomodar
O pênalti perdido, no entanto, não atrapalhou a carreira de Ronaldo. A primeira derrota serviu como lição. Mais gols despertaram o interesse do PSV Eindhoven, e o atacante acabaria trilhando, pouco antes de ser tetra em 1994, o caminho do grande herói daquele título - foi no rival do Ajax que Romário começou a brilhar na Europa. E não foi só nisso que Ronaldo seguiu Romário. A história pública – e polêmica – de Ronaldo com as mulheres começa junto com sua primeira escalação para a Seleção Brasileira.
Em 1994, a modelo Nádia França deixou seu trabalho no Brasil para acompanhar o namorado na Holanda. A mineira afirmou que engravidou do jogador, porém, a paternidade não foi reconhecida. Meses depois do fim do relacionamento, Nádia anunciou que sofreu um aborto espontâneo. Neste momento, Ronaldo já estava iniciando o namoro com a atriz Susana Werner, que, na época, atuava na novela adolescente “Malhação” - hoje, a atriz é casada com o goleiro da Seleção Brasileira, Julio Cesar.
Dentro de campo, Ronaldo marcava gols às pencas na Holanda - foram 67 em 71 partidas oficiais. Bateu Kluivert na artilharia do nacional, com 30 gols. Mas começou a ter problemas com o joelho. A primeira cirurgia foi em fevereiro de 1996, após uma ressonância magnética constatar inflamações nos joelhos, especialmente calcificação no direito, que passou por uma "raspagem" na cartilagem. Recomendado a se submeter a uma lenta recuperação, nem ele nem o comando do PSV tiveram paciência: logo, logo Ronaldo já estava de volta aos campos, só que no banco. E aí, surgiu o primeiro problema com treinador: o holandês Dick Advocaat começou a irritá-lo.
Fenômeno na chegada e saída do Barça
O Barcelona já estava de olho em Ronaldo, que desembarcou na capital catalã para virar o Fenômeno. Voltou a seguir a trilha de Romário, que já saíra do Barça para o Flamengo. Com a camisa azul-grená, Ronaldo começou a encantar o planeta. Fechou o ano de 1996 com 17 gols em 20 jogos. Acabou eleito o melhor jogador do mundo pela primeira vez. Levantou a Copa do Rei e a Recopa Europeia. Os golaços lhe renderam o apelido que levou por toda a vida. Mas não conseguiu o título espanhol e surpreendeu a apaixonada torcida ao trocar, de repente, o Barça pelo Inter de Milão, que pagou multa a rescisória de US$ 32 milhões. De ídolo, passou a odiado pela torcida que o consagrou.
No Inter, Ronaldo voltou a fazer gols sensacionais. Agora com a camisa 10 em vez da 9, marcou 14 gols em 19 partidas ao encerrar o ano de 1997. Voltou a ser eleito o melhor do mundo. Mas o título italiano não apareceu, apesar do bom desempenho - foi o vice-artilheiro, com 25 gols. Em compensação, faturou a Copa da Uefa.
Poucas horas após a convulsão, Ronaldo cai estatelado após choque com o goleiro francês na final da Copa de 1998: pânico no campo, nas arquibancadas e no Brasil. Seleção acaba derrotada por 3 a 0 (Foto: AFP)Convulsão na Copa, contusões no Inter, fofocas...
O ano de 1998 tornou-se um pesadelo para Ronaldo. Maior esperança brasileira para faturar o hexa na França, o atacante era um dos destaques da campanha, junto com Rivaldo, até a final contra os donos da casa. Uma convulsão até hoje cercada de mistério e informações desencontradas horas antes da partida mexeu com o emocional do jogador e do time, que viu Ronaldo entrar em campo e cair estatelado no chão após uma dividida. Depois disso, é o que todo mundo lembra: Zidane comandou o passeio na vitória por 3 a 0 naquele 12 de junho, e Ronaldo passou a conviver com as acusações de "culpado" pela derrota.
Após casamento com Milene Domingues, primeiras
acusações de traições (Foto: Reprodução)Foi assim que Ronaldo começou a temporada do calcio 1998/1999. E o Inter acabou perdendo o título para o maior rival, o Milan. O atacante também sofreu com uma tendinite e passou o ano evitando a segunda cirurgia. Mas em novembro, não teve jeito. O joelho estourou em um jogo contra o Lecce, pelo Campeonato Italiano. Foram apenas 36 jogos e 21 gols naquela temporada. De positivo, apenas a conquista da Copa América pela Seleção. Mas o ano terminou com o Fenômeno na mesa de cirurgia.... mas no altar.
No fim de 1999, foi realizado o primeiro casamento do Fenômeno e um fim que seguiu um padrão. A esposa era Milene Domingues, conhecida como Rainha das Embaixadinhas. Com ela, Ronaldo teve o primeiro filho, Ronald. E também surgiram as primeiras acusações de traições, mesmas alegações das modelos Raica de Oliveira e Daniela Cicarelli, com quem teve um casamento-relâmpago de apenas três meses, com cerimônia oficial de união realizada no Castelo de Chantilly, em Paris, no meio de especulações de briga entre a noiva e a ex, a também modelo Ellen Jabour, durante o evento.
Imagens do tendão do joelho de Ronaldo rompendo
chocaram o mundo pela TV (Foto: Reprodução)A pior contusão
Para quem acha que nada poderia ficar pior... A temporada de 2000 foi a mais dramática da carreira de Ronaldo. A conta não é de mentiroso: sete minutos foi o tempo que o Fenômeno ficou em campo naquele ano. Após cinco meses se recuperando da operação no joelho direito, ele entrou no segundo tempo contra o Lazio, na final da Copa da Itália, no dia 12 de abril. Depois de uma arrancada, o tendão não suportou e se rompeu. As imagens do lance mostradas na TV chocaram o mundo. Ronaldo foi obrigado a passar pela terceira cirurgia. Foram mais 15 meses longe dos campos.
Ronaldo passou mais tempo nas salas de fisioterapia. A recuperação da cirurgia no joelho foi cuidadosa. O atacante disputou três amistosos antes de entrar em um jogo oficial, contra o Brasov, pela Copa da Uefa. No total, foram 13 jogos e oito gols pelo Inter.
No ano do penta, mágoas dos torcedores do Inter
Desavença com técnico Hector Cúper foi a gota
d'água para saída do Inter (Foto: Getty Images)O ano de 2002 começou com o Brasil inteiro duvidando de Ronaldo. Havia campanha até para a convocação de Romário. Mas Felipão optou pelo Fenômeno, chamado para a Copa após ter feito só oito jogos nos primeiros cinco meses do ano. Na Itália, ele fracassara novamente com o Inter no jogo decisivo contra o Lazio, que valia o título nacional, não conquistado pelo clube havia 12 anos. Após atuação apagada na derrota de 4 a 2, que deu o scudetto ao Juventus, Ronaldo chorou diante das câmeras.
Mas, na Copa da Coreia e do Japão, o Fenômeno brilhou. Fez oito gols e foi a estrela do penta. E justamente no ano da redenção, pôs fim ao romance com o Inter. Em alta, não queria mais voltar ao clube. Brigou com o técnico argentino Héctor Cúper, sob a alegação de que o treinador o usava apenas em más condições físicas. No fim, foi negociado com o Real Madrid, que desembolsou 42 milhões de euros. O ano terminou com o título do Mundial de Clubes e o status de ser eleito o melhor do mundo pela terceira vez pela Fifa. Mas os torcedores do Inter jamais o perdoaram, achando que o jogador foi ingrato, mercenário, e teria agido como "fugitivo".
Vilão no Real e na Copa de 2006
Também no Real Madrid, Ronaldo oscilou: passou de ídolo a vilão. Ganhou a Supercopa da Espanha em 2003 e foi novamente o artilheiro da Liga, em 2004. Mas a lua de mel começaria a ruir. O clube havia formado o time de "galácticos", que fracassou na disputa dos títulos importantes no biênio 2003/2004, e daí para frente. Apesar de Ronaldo ter marcado 83 gols em 127 partidas disputadas, o relacionamento com a torcida estava abalado graças às lesões musculares e aos compromissos profissionais que não eram vistos com bons olhos pelos espanhóis, para quem faltava profissionalismo.
Em 2005, o atacante viu o "conto de fadas" com a apresentadora Daniella Cicarelli chegar ao fim. O luxuoso casamento no castelo da cidade de Chantilly, nos arredores de Paris, durou apenas três meses. No campo, o Real Madrid novamente decepcionou. Mais um ano sem títulos. E Ronaldo, símbolo da "Era Galácticos", foi visto como um dos culpados. O atacante passou a ser chamado de gordo. Estava dez quilos mais pesado em relação ao início da carreira devido ao trabalho de reforço muscular, essencial devido aos problemas no joelho. Na Seleção, enfrentou crise com Parreira ao pedir para ser dispensado da Copa das Confederações.
Na chegada a Weggis, Ronaldo estava com 95kg. Briga com balança sempre foi imensa (Foto: Photocamera)No ano da Copa da Alemanha, Ronaldo teve o pior início de ano da carreira. Marcou apenas dois gols em 11 jogos (até 20 de março). Naquele ano, o Fenômeno viveu um inferno-astral, mas foi titular absoluto da Seleção Brasileira. Chegou a Weggis, na Suíça, onde a Seleção se preparou para a Copa da Alemanha, com 95kg, bem acima do peso. Conseguiu perder cinco durante a preparação, mas continuou pesado para a competição. Fora isso, junto com outros jogadores, protagonizou "fugidas" da concentração para curtir a noite.
Brigas com Lula, Pelé e Platini
Na ocasião, Ronaldo começou a disparar sua metralhadora giratória para cima do então presidente Lula, que o chamara de gordo numa entrevista.
- Ele falou que eu estou gordo, todo mundo diz que ele bebe pra caramba. Tanto é mentira que eu estou gordo como deve ser mentira também que ele bebe pra caramba - afirmou Ronaldo, que depois, quando foi para o Corinthians, fez as pazes com o presidente.
Na ocasião, Ronaldo não quis mais papo com Lula. E, longe da melhor forma física, o camisa 9 da Seleção Brasileira ainda mostrou lampejos de craque no Mundial. Com os três gols marcados, passou o alemão Gerd Müller e tornou-se, com a soma de 15 gols, o maior artilheiro de todas as Copas do Mundo. O gol derradeiro saiu em bela jogada individual em que driblou o goleiro de Gana. A partida, pelas oitavas de final, terminou com vitória brasileira por 3 a 0 e abriu esperanças de revanche contra a França de Zidane pelas quartas de final.
Mas, tal como em 1998, Zizou saiu vitorioso. Além de dar drible de chapéu no Fenômeno, ajudou a eliminar o Brasil no triunfo dos "bleus" por 1 a 0, gol de Henry. Ronaldo acabou como um dos crucificados pelo fim do sonho do hexa, não sendo mais chamado para a Seleção. Recebeu críticas até do Rei do Futebol, durante evento para inaugurar o Festival do Esporte em Viena, na Áustria.
Em 2006, Ronaldo teve bate-boca com Lula, Platini e Pelé (Foto: Montagem sobre foto da Ag. O Globo)- O problema do Ronaldo é o excesso de peso. Se ele quiser melhorar, vai ter que treinar muito - disse o eterno camisa 10 da Seleção em coletiva, que elogiou Ronaldinho Gaúcho ao mesmo tempo em que não poupou críticas à equipe comandada por Parreira. - O Gaúcho é uma grande figura. Pena que não foi bem na Copa do Mundo. A Seleção não estava bem treinada, não tinha o conjunto de um Barcelona, por exemplo, cujos atletas jogam juntos há três anos.
Pelé pediu desculpas logo depois, mas Ronaldo não escondeu a mágoa com o Rei do Futebol. Em entrevista ao jornal "O Globo", o camisa 9 partiu para o ataque.
- Estou triste com muitas pessoas que se mostravam amigas e agora estão quase me evitando. Mas realmente fiquei decepcionado com o Pelé. Ele é brasileiro, um ídolo nosso. Acho que foi um oportunista barato. As coisas estão complicadas, mas não esperava isso dele, de falar da minha vida pessoal. O Pelé tem família, tem os problemas dele para resolver, para se preocupar. Bem que podia me deixar em paz.
Com Lula, relação só melhorou após ida para o
Corinthians, em 2009 (Foto: Divulgação / Joedson)Na mesma entrevista, sobrou para Michel Platini, que o chamara de velho e gordo. "Nem dei atenção. O Platini me é indiferente. Ele já se mostrou ciumento outras vezes. Tenho um amigo francês jogador (Zidane) que o superou em tudo e sempre me disse que ele era invejoso. O que conta para mim é o apoio que o Zico me deu. Ele sempre foi um ídolo e fiquei feliz com o que ele disse.
Curiosamente, foi na Copa da Alemanha que Ronaldo ultrapassou Pelé como o maior goleador brasileiro em Mundiais, ao marcar duas vezes contra o Japão. Mais do que isso, tornou-se o maior artilheiro das Copas, superando o alemão Gerd Mueller.
E foi diante de Pelé, em 2009, que Ronaldo viveu um de seus últimos grandes momentos no futebol. Em uma Vila Belmiro lotada, com Pelé na tribuna de honra, o Fenômeno fez dois gols antológicos na vitória por 3 a 1 sobre o Santos, e o Corinthians seria o campeão paulista daquele ano.
Decepção no Real e no Milan
Ao retornar ao Real Madrid, sentiu que, com a saída do presidente Florentino Pérez, começou a perder força no clube, que contratara o holandês Van Nistelrooy. O atacante manifestou logo o desejo de sair do Real por achar que não tinha apoio dos torcedores. Após vitória por 3 a 0 sobre o Alavés, ironicamente o adversário da sua estreia pelo clube merengue, ele foi vaiado no Santiago Bernabéu, o que nitidamente o incomodou. O atacante afirmou que não se sentia em casa no próprio estádio e não era tratado com carinho.
Lesões, obesidade e noitadas atrapalharam craque
brasileiro no Real Madrid (Foto: Reuters)- Nunca fiquei à vontade onde as pessoas não me desejam - disse o craque, que passou a sonhar com as conquistas do Espanhol e da Liga dos Campeões para amenizar o clima. Mas isso não aconteceu.
Em janeiro de 2007, Ronaldo passou a negociar a sua transferência para o Milan, apesar de o Real relutar num primeiro instante. O clima para a permanência, no entanto, não era nada bom. O atacante não se entendia mais com o técnico italiano Fábio Capello. O excesso de noitadas e, novamente, os compromissos com patrocinadores acabaram selando o inevitável. O Fenômeno deixava a Espanha rumo à Itália, onde se apresentou ao Milan no dia 30 de janeiro. Deixou para trás os 104 gols marcados no Real e ressentimentos da torcida merengue.
O craque voltou a Milão para defender o Milan, rival do Inter, onde fora herói e vilão. por sete milhões e meio de euros. Naquela temporada, o Milan tinha poucas chances de vencer o Campeonato Italiano porque começara a competição com oito pontos a menos, como punição do envolvimento do clube no "Calciocaos" (escândalo de manipulação de resultados). E o pior: na Liga dos Campeões da Uefa, Ronaldo sequer pôde entrar em campo - já atuara pelo Real na competição.
No Milan, sonho termina em 13 de fevereiro de 2008, contra o Livorno, com nova lesão no joelho (Foto: AP)O jeito foi ver das tribunas os colegas serem campeões. De cabelos crescidos, diferente da cabeça raspada dos tempos de Inter, Ronaldo descobriu no Milan que tinha hipotireoidismo, o que o fazia engordar. Tratou o problema e começou a temporada 2007/08 cinco quilos e meio mais magro. Na companhia de Kaká e Alexandre Pato, parecia que recuperaria o seu futebol.
Fora dos campos, voltou ao altar. Casou-se com Maria Beatriz Anthony e teve mais dois filhos, Maria Sophia e Maria Alice. Entre boatos de separações, os dois continuam juntos até o momento, apesar de, em 2010, o jogador ter assumido a paternidade de Alex, um menino de 5 anos, fruto de um rápido relacionamento com a garçonete Michelle Umezu, durante passagem do craque pelo Japão na pré-temporada do Real Madrid, em 2004.
Em boa fase na vida pessoal, Ronaldo viu o sonho acabar nos campos da Itália em 13 de fevereiro de 2008, na partida contra o Livorno. Após entrar no lugar de Gilardino, o Fenômeno, logo no primeiro lance, se lesionou seriamente na hora que deu um salto. Logo em seguida, saiu chorando. Ali, terminava sua breve aparição no Milan, que não quis mais renovar o contrato com o jogador. Foram nove gols marcados em 20 partidas.
"Andréia" morreu em 2009 (Foto: Globoesporte.com)Polêmica com travesti
Já casado com Bia Anthony, Ronaldo voltou ao Brasil e passou pelo momento mais difícil da carreira. Em abril de 2008, o jogador saiu de uma boate no Rio de Janeiro e, segundo admitiu em depoimento na delegacia, procurou serviços de uma prostituta na orla da Praia da Barra da Tijuca. No entanto, levou ao motel um travesti conhecido como “Andréia”, e garantiu que, ao perceber que a pessoa com quem estava não era uma mulher, teria desistido do programa.
O craque afirmou também que Andréia o teria ameaçado de extorsão para não revelar o episódio à imprensa. Na versão do travesti, no entanto, Ronaldo sabia que ele era um homem e, mesmo assim, pediu que convidasse mais duas amigas para o motel. Ainda segundo ele, houve consumo de drogas no local, que teriam sido trazidas a pedido do jogador.
Ronaldo negou uso de drogas e anabolizantes. Depois do episódio com o travesti - que foi acusado formalmente por extorsão contra o jogador e, no início de julho de 2009, morreu devido a uma meningite contraída na cidade de Mauá -, o jogador divulgou uma nota oficial à imprensa negando ser usuário de qualquer entorpecente.
- Diante dos últimos acontecimentos e com o objetivo de esclarecer, o atleta Ronaldo jamais foi usuário de drogas, não teve nenhuma queixa-crime registrada contra a sua pessoa e está sendo vítima de uma tentativa de extorsão. Ele agradece a decência da autoridade que preside o fato e, se necessário, tomará as atitudes cabíveis - escreveu no documento.
Coube ao próprio Ronaldo também afirmar que jamais usou anabolizantes durante sua carreira. A declaração aconteceu após o então coordenador do setor de dopagem da CBF, Bernardino Santi, ter dito que a lesão no joelho esquerdo do jogador poderia ter sido uma consequência de uso dos hormônios para ganhar massa muscular na época em que jogava pelo PSV, da Holanda. De acordo com o médico, demitido da instituição logo após a afirmação, em 2008, os músculos do atacante teriam crescido demais, além do que a musculatura poderia suportar.
A informação também consta na biografia não autorizada do Fenômeno, escrita pelo italiano Enzo Palladini, que chegou às livrarias em 2010. Ronaldo rebateu as acusações no Twitter:
- Quanto ao italiano, vale lembrar que desde do início da minha carreira já existe o exame antidoping. Quero ver falar e provar – escreveu.
Ira do Fla, glória e decepção no Timão
Na eliminação para o Tolima, a grande decepção de
Ronaldo (Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com)Dentro de campo, o Fenômeno reiniciava, no Flamengo, time para o qual afirmava torcer, a tentativa de voltar aos gramados. O atacante sonhava encerrar a carreira em seu país, ganhar títulos no futebol brasileiro. O clube rubro-negro dava certa sua contratação. Mas, segundo o jogador, não lhe fez uma proposta concreta. Foi quando chegou o Corinthians com um projeto de marketing inovador. Em 12 de dezembro, era apresentado numa festa inesquecível e se dizia mais um louco no bando. No Rio, ganhava a eterna ira da torcida rubro-negra, que o chamava de traidor.
O início no Timão foi avassalador: decisivo no Paulista e na Copa do Brasil, entrou logo para a galeria dos heróis da Fiel. Mas a lua de mel durou apenas o primeiro semestre. Tudo começou a piorar quando fraturou a mão em julho de 2009, em um clássico com o Palmeiras. A partir daí, conviveu constantemente com lesões e com problemas de peso.
Ronaldo jamais voltou a ser o mesmo Sem a mobilidade de antes, iniciou 2010 se preparando para a Libertadores no ano do centenário. Outra decepção: após uma primeira fase impecável, o Timão encarou o Flamengo nas oitavas e foi eliminado precocemente. Ronaldo, então, viu de perto a primeira crise.
O clube tentou o título brasileiro, mas o Fenômeno, com várias lesões musculares e também uma no púbis, só jogou na reta final, já sem Mano Menezes, sem Adilson Batista e com Tite. O atacante pouco fez pelo time e junto dos companheiros viveu a frustração de perder um título nacional que estava nas mãos do clube. No início de 2011, a derrota para o Deportes Tolima foi a gota d'água para sofrer pressões e até ameaças de parte da torcida. No meio disso, um outro bate-boca, pelo Twitter, com Neto, ex-jogador, ídolo do Corinthians, aborreceu o atacante. Ele se defendia dos ataques afirmando que “jogava somente por amor” quando foi criticado por Neto.
- Se você (Ronaldo) fala que só joga por amor, abra mão do R$ 1,5 milhão por mês. Eu que nunca fui 1% de você, assinava contrato em branco. Eu jogava por amor. Casagrande, Sócrates, Wladimir, Rivelino, Viola jogavam por amor. Para de conversa fiada, vai! – escreveu Neto.
Ronaldo respondeu no mesmo tom:
- Não vou responder a ex-jogador aproveitador. Que vive até hoje com a imagem ligada ao clube, implorando para fazer evento em loja oficial. Muito menos para gente irresponsável que incentiva a violência e que cospe nos outros - disse o atacante, antes de baixar o pano e pôr fim a um carreira de glórias mas também cheia de polêmicas.
Ronaldo ergue troféu ainda no São Cristovão
(Foto: Arquivo Pessoal)Em 1994, um garoto magro e dentuço conquistava o Brasil. A comparação com Pelé era inevitável. Aos 17 anos, ele vestia a camisa da seleção brasileira pela primeira vez logo contra a Argentina. No jogo seguinte marcava o primeiro gol contra a Islândia. E após só duas partidas com a amarelinha era convocado para disputar a Copa do Mundo. A história de glória de um garoto pobre, que cresceu em uma casa simples no bairro de Bento Ribeiro, no subúrbio do Rio de Janeiro, começava a ser escrita.
Mais novo dos três filhos de Nélio, que era camelô, e Sônia, sorveteira, ele dormia no sofá. Teve uma infância pobre, embora não miserável. O nome surgiu por causa de uma homenagem feita ao médico Ronaldo Valente, que buscou Dona Sônia em casa no dia 18 de setembro de 1976 em um fusquinha e a levou para o hospital São Francisco Xavier, em Itaguaí, para o parto. O doutor foi também padrinho do atacante, que demorou para ser registrado... Seu Nélio perdeu o prazo e acabou falando que o filho tinha nascido no dia 22 de setembro - quatro dias depois da data verdadeira - para evitar a cobrança de uma multa no cartório de Cascadura.
Não demorou para baterem na porta da casa número 114 da rua General César Obino. Ronaldo recebeu um convite para virar sócio-atleta do Valqueire Tênis Clube. Não havia vaga no time mirim. Acabou virando goleiro. Não deu certo. O time estava em último lugar no Campeonato Carioca de futebol de salão. O técnico Marquinhos resolveu, então, radicalizar. Conhecendo a fama de "Dadado", resolveu colocá-lo em uma partida no ataque. Resultado: Ronaldo fez quatro gols na vitória por 5 a 4 em cima do Vasco, então líder da competição.
Carteirinha de Ronaldo no São Cristovão (Reprodução)A atuação chamou a atenção de um supervisor do Social Ramos, um outro time que disputava o Carioca. E logo Ronaldo trocaria de clube. O Social Ramos era mais tradicional, disputava o Campeonato Metropolitano. Foi quando o atacante ganhou fama entre quem acompanhava a competição. "Dadado" fez 166 gols na temporada. Passou a ser visto como um garoto extraordinário. E a ideia de seguir os passos do ídolo Zico amadureceram na cabeça de Ronaldo. Aos 12 anos, ele tinha fixo na cabeça que queria jogar no Flamengo. Era o clube do coração, o que pagava bem, o que revelava bons jogadores.
A vontade e a determinação fizeram Ronaldo descobrir o dia e a hora de uma peneira. Pegou dois ônibus até chegar à Gávea e fazer o teste com outros 400 garotos. Passou. Mas não tinha como pagar o transporte para ir treinar todos os dias. E não conseguiu ajuda no Flamengo. Precisou desistir da ideia. Acabou, então, em São Cristóvão. Um convênio com o Social Ramos levou o atacante aos primeiros treinos no clube. O técnico Roberto Gaglianone logo percebeu que havia ali um jogador diferenciado. Conseguiu, então, que o diretor Ary de Sá pagasse o trem de Bento Ribeiro até a Central.
No dia 12 de agosto de 1990, Ronaldo fez seu primeiro jogo pelo mirim do São Cristóvão. E marcou três gols na vitória por 5 a 2 sobre o Tomazinho. No total, foram oito gols em 12 jogos naquele ano.
Súmula do primeiro jogo de Ronaldo pelo São Cristovão, em 1990: três gols e vitória (Foto: Reprodução)No seguinte, já no infantil, foram 28 jogos e 17 gols. Ronaldo, lógico, despertou a atenção de empresários. Por indicação de Jairzinho, o Furacão do Tri, Reinaldo Pitta e Alexandre Martins compraram o passe do atacante aos 15 anos pagando apenas US$ 7,5 mil ao São Cristóvão, em 1992. Apesar do valor irrisório da venda, o São Cristóvão lucrou bastante com o sucesso de Ronaldo. De acordo com o Estatuto de Transferência do Jogador, editado pela Fifa em outubro de 2003, todo clube formador de atleta tem direito a 5% de cada transferência do pupilo. Com isso, o clube carioca faturou R$ 1.269.849 do Real Madrid e mais R$ 122.363 do Milan.
Ronaldo São Cristovão (Foto: Divulgação)Reinaldo Pitta e Alexandre Martins tentaram levar Ronaldo para o São Paulo e para o Botafogo. Mas não tiveram sucesso. A primeira ideia da dupla era vender 50% do passe do atacante para o Alvinegro, que seria uma boa vitrine. Mas o clube carioca não quis. Já com o Tricolor a proposta era oferecer Ronaldo por R$ 25 mil, que só queria pagar R$ 15 mil.
Foram dois anos e meio jogando nas divisões de base do São Cristóvão, onde marcou 44 gols em 73 jogos. Em 1993, Ronaldo foi convocado para disputar o Sul-Americano sub-17 com a seleção brasileira. Apesar do fracasso - o Brasil terminou em quarto lugar e ficou fora do Campeonato Mundial da categoria pela primeira e única vez da história - o atacante se salvou e foi o artilheiro da competição com oito gols. Motivo suficiente para chamar a atenção do Cruzeiro.
Pouco tempo depois, o atacante desembarcava em Belo Horizonte para começar a brilhar. O time mineiro aceitou pagar US$ 50 mil por 55% dos direitos econômicos do jogador. Era conhecido ainda apenas como "Ronaldo Luís".
Aos 16 anos, Ronaldo no Cruzeiro (Foto: Reprodução)Sua estréia com a camisa do Cruzeiro aconteceu em em março de 1993, contra o Botafogo de Matosinhos-MG, na preliminar de Cruzeiro e Desportiva-ES, pela Copa do Brasil, no Mineirão. Ronaldo marcou dois gols na goleada por 4 a 1. Pouco depois conquistou a Supertaça Minas Gerais e a Copa Belo Horizonte de Futebol Júnior tornando-se o artilheiro em ambas as competições. Destacou-se e passou a ser tratado como um jogador especial.
Quando o Cruzeiro avançou para a fase semifinal da Copa do Brasil, o técnico Pinheiro poupou os titulares e escalou um mistão para as partidas do Campeonato Mineiro. Ronaldo passou a ser relacionado. Foi escalado como titular contra a Caldense e fez sua estreia entre os profissionais aos 16 anos no dia 25 de maio de 1993, em Poços de Caldas, na vitória por 1 a 0 sobre a Caldense.
Aos 16 anos, Ronaldo fez sua estreia no futebol profissional. Foi no dia 25 de maio de 1993, pelo Campeonato Mineiro. Mesmo quando não era relacionado para as partidas, Ronaldo se concentrava com o time principal. E acompanhou a delegação do time à Porto Alegre, onde ocorreria a decisão da Copa do Brasil contra o Grêmio. Em agosto, viajou para disputar amistosos na Europa. Fez o primeiro gol como profissional em cima do Belenenses.
Voltou da excursão por Portugal despertando interesses de dirigentes italianos. O Cruzeiro recebeu a primeira sondagem do Inter de Milão, recusada mesmo com proposta de 500 mil dólares (o que significava uma valorização de 1.000% em cinco meses). Preferiu apostar na revelação. Deu certo. Era o início de uma carreira de glórias... Em pouco tempo, Ronaldo teria o mundo às suas mãos, conquistaria títulos, seria eleito três vezes o melhor jogador do mundo pela Fifa, viraria o ícone de uma geração...
A arte de tentar outra vez: Ronaldo
Parar é difícil para todos. Imagine então o tamanho do drama para quem sempre pareceu invencível, imune aos limites do corpo, impermeável às críticas, confiante até o último quase sempre inexistente fio de cabelo. Ao decidir encerrar a carreira, Ronaldo diz ao mundo que até para um Fenômeno a cota de superações tem limites. Limites estes que certamente tiveram suas fronteiras alargadas depois da trajetória de R9.
O momento mais sublime da carreira de Ronaldo - os braços abertos depois de vencer o alemão Oliver Kahn pela segunda vez na decisão da Copa do Mundo de 2002 (veja o vídeo acima) - parecia obra de ficção para quem em abril de 2000 chocou o mundo ao desmoronar no gramado do estádio Olímpico de Roma. O tendão patelar do joelho direito estava escancaradamente rompido. A imagem era forte, e o grito de desespero com a camisa do Inter de Milão contra o Lazio, pela final da Copa do Rei, não deixava dúvidas do tamanho da dor. Parecia o fim.
Ronaldo ficou um ano e três meses parado e só voltou a jogar pela Seleção na vitória por 1 a 0 sobre a Islândia. O amistoso no Castelão, em Fortaleza, foi no dia 27 de março de 2002, menos de três meses antes da estreia na Copa. O atacante só fez mais três jogos com a camisa do Brasil até o gol contra a Turquia, o primeiro da vitória por 2 a 1 no início da caminhada rumo ao penta - enfrentou Portugal (1 a 1) e os "gigantes" Catalunha (3 a 1) e Malásia (4 a 1). Parecia loucura confiar no camisa 9. Felipão apostou alto e riu por último. Viu Ronaldo marcar oito gols na trajetória do título.
Ronaldo comemora com Oliver Kahn batido: o auge após meses de drama (Foto: Getty Images)
A superação de 2002 também aliviou a dor da derrota para a França em 98, depois de sofrer uma convulsão no dia da final. E se torna ainda mais surpreendente se levado em conta que a lesão de 2000 já era a terceira no joelho direito.
Ronaldo se machucou no local pela primeira vez em 1996. Quando jogava pelo PSV, passou por uma cirurgia para raspagem da cartilagem do tendão. Ficou quatro meses parado. Em 1999, já pelo Inter de Milão, rompeu parte do tendão patelar em um jogo contra o Lecce, pelo Campeonato Italiano. Passou cinco meses afastado dos campos e voltou justamente no fatídico confronto com o Lazio.
Além do drama do joelho direito, Ronaldo ainda teria mais duas operações na carreira. Em 2006, quando defendia o Real Madrid, veio ao Brasil para realizar uma cirurgia de raspagem de duas calcificações no osso da tíbia da perna esquerda. Ficou um mês e meio parado. Em 2008, um pesadelo similar ao de 2000: pelo Milan, mais uma lesão de tendão patelar, desta vez no joelho esquerdo.
Na época da cirurgia de 2008, em entrevista à repórter Sônia Bridi, Ronaldo cogitava parar de jogar. Mas dizia que a vontade de mais uma volta por cima era maior.
- Acredito em destino. Acredito que eu esteja aqui para cumprir uma missão. E talvez a minha missão seja essa. Mostrar para pessoas que não têm problemas e que vivem reclamando da vida, de coisas mínimas. Mostrar para o mundo que qualquer que seja o problema a pessoa tem que acreditar e se superar.
Hoje, a frase soa como profecia. O recomeço veio com a camisa do Corinthians (veja o vídeo com momentos marcantes do atacante em 2009). Quando fechou contrato com o Timão, Ronaldo não tinha só a missão de se mostrar recuperado da cirurgia. Estava em jogo também a série de críticas que vinha recebendo desde 2006. Na Copa da Alemanha, o atacante tornou-se o maior artilheiro de todos os tempos em Mundiais, com 15 gols, mas foi bastante criticado pelo excesso de peso. Da lesão contra o Livorno até a estreia contra o Itumbiara passaram-se mais de 12 meses de estaleiro e fotos com barriga avantajada. Também foi naquele período o escândalo com um travesti. O desabafo veio no alambrado do estádio em Presidente Prudente, na comemoração de seu primeiro gol com a camisa do Timão. Com uma cabeçada aos 47 minutos do segundo tempo, empatou o clássico com o Palmeiras em 1 a 1 no dia 8 de março de 2009.
Foi apenas o primeiro capítulo de um semestre de títulos paulista e da Copa do Brasil. No primeiro, foram oito gols em dez jogos, com direito a uma pintura na primeira partida da decisão contra o Santos, encobrindo Fábio Costa na vitória por 3 a 1, na Vila Belmiro. Na competição nacional, fez um dos gols da vitória por 2 a 0 sobre o Inter na primeira partida da decisão, no Pacaembu. No jogo de volta, deu passe para gol de André Santos no empate em 2 a 2.
Faltava a Libertadores, obsessão dos corintianos. Em 2010, Ronaldo até fez gol, mas o time não conseguiu superar o Flamengo. Neste ano, o atacante fracassou contra o Tolima. Uma famosa peça publicitária de 2003 mostrava a volta por cima de Ronaldo como símbolo da campanha do governo com o slogan "brasileiro não desiste nunca". A música tema era "Tente outra vez", na voz de Raul Seixas. Ronaldo ainda tem dois pés para cruzar a ponte, mas o peso já não comporta mais tentativas. Ele já tentou mais do que o suficiente.
Chegou ao fim nesta segunda-feira uma das mais brilhantes carreiras da história do futebol. Aos 34 anos, Ronaldo não resistiu à intensa batalha diária contra os desgastes físicos acarretados pelas oito cirurgias ao longo da sua trajetória, relembrou um problema de hipotireoidismo e anunciou que não jogará mais profissionalmente. É o fim para aquele que eternizou a camisa 9 com um talento que, não por acaso, lhe rendeu o apelido de Fenômeno e se transformou em um mito mundial.
- Estou aqui para falar que estou encerrando a carreira como jogador profissional. E dizer que essa carreira foi linda, maravilhosa e emocionante - declarou Ronaldo, ao abrir o seu emocionante pronunciamento.
Em uma concorrida entrevista coletiva no CT Joaquim Grava, em São Paulo, o craque comunicou, exatamente às 13h02m, que não continuará atuando pelo Corinthians, clube com o qual tinha contrato até 31 de dezembro de 2011. Ronaldo assombrou o planeta aliando velocidade e técnica de forma nunca vista antes, mas sucumbiu ao tempo e ao próprio corpo. Agora, se dedicará à família, à vida de empresário, a um projeto social e à fortuna que acumulou sendo um gênio da bola.
Ronaldo chegou ao centro de treinamento às 10h30m, acompanhado de dois dos seus quatro filhos - Ronald e Alex. Vestido com traje casual, caminhou até o gramado onde os outros jogadores treinavam e parou a atividade. Por cerca de cinco minutos, discursou para companheiros, membros da comissão técnica e diretoria. No fim, todos o aplaudiram de pé e o abraçaram em uma cena comovente, que representa bem o respeito que todos têm por ele.
Ronaldo chora ao anunciar sua despedida do futebol (Foto: Marcos Ribolli / GLOBOESPORTE.COM)Até a hora do anúncio oficial, o Fenômeno ficou nas dependências internas do CT se despedindo de funcionários e outros colegas. A cada adeus, a emoção tomava conta do jogador.
Ao explicar os motivos por ter antecipado o seu adeus, Ronaldo justificou usando dois fatores: o hipotireoidismo e as constantes dores.
- Todos sabem do meu histórico de lesões. Tenho tido, nos últimos anos, uma sequência de lesões que vão de um lado para o outro, de uma perna para a outra, de um músculo para o outro. Essas dores me fizeram antecipar o fim da minha carreira. Além disso, há quatro anos eu descobri, quando estava no Milan, que sofria de hipotireoidismo. É um distúrbio que desacelera o metabolismo e que, para controlá-lo, é necessário tomar alguns hormônios proibidos no futebol, por poder acusar doping. Imagino que muitos devam estar arrependidos por terem feito chacota sobre o meu peso, mas eu não guardo mágoa de ninguém.
Antes do adeus oficial, Ronaldo se despediu dos companheiros de clube e foi muito aplaudido
(Foto: Marcos Ribolli/GLOBOESPORTE.COM) - Foi uma carreira linda, vitoriosa, emocionante... Tive muitas derrotas, infinitas vitórias, fiz amigos e não lembro de ter feito um inimigo. Tenho muitos agradecimentos a fazer. A todos os clubes em que passei: São Cristóvão, Cruzeiro, PSV, Barcelona, Inter de Milão, Real Madrid, Milan... O Corinthians eu agradecerei logo mais. Quero agradecer a todos os jogadores que atuaram comigo e aqueles que jogaram contra, aos que foram leais e aos que foram desleais também. Agradecer aos treinadores com os quais tive boa relação e aos que eu tive divergências. E também agradecer aos patrocinadores que sempre acreditaram em mim.
Para se distrair e tentar não deixar as lágrimas escorrerem, Ronaldo rabiscava um pedaço de papel, postava comentários no Twitter e brincava com os filhos, que estavam sentados numa cadeira ao lado. Alex, o caçula de 5 anos, chegou a se esconder embaixo da bancada, arrancando risadas do pai. Como prometido, o Corinthians teve um capítulo especial na hora do seu adeus.
- Tudo começou com um café da manhã com o presidente Andrés Sanches no Rio de Janeiro. Acreditei no projeto, demos um aperto de mão e eu falei para ele "pode trazer o contrato que eu assino até em branco se precisar".
Ao lado dos filhos Alex e Ronald, o Fenômeno falou e se emocionou durante 45 minutos
(Foto: Marcos Ribolli / GLOBOESPORTE.COM) Ronaldo foi apresentado como reforço do Corinthians em dezembro de 2008. Era o principal nome do projeto de reconstrução do clube, que acabava de voltar de um doloroso rebaixamento à Série B do Campeonato Brasileiro, quando jogou a Segunda Divisão e retornava à elite. Pelo Timão, Ronaldo esteve em campo 69 vezes, marcou 35 gols e ganhou dois títulos em 2009: o Paulistão e a Copa do Brasil.
A perda de duas Libertadores, 2010 e 2011, foram os seus piores momentos. A última, inclusive, culminou numa reação violenta de parte da torcida. No retorno da Colômbia, onde o time foi eliminado ainda na primeira fase, o ônibus da delegação foi apedrejado, os atletas foram insultados e os muros do clube acabaram pichados. Ronaldo, claro, foi o principal alvo.
- Tenho de fazer meu agredecimento a todos os brasileiros que choraram comigo quando eu chorei e que caíram comigo quando eu caí. Mas, dessa torcida brasileira toda, eu quero agradecer a do Corinthians. Nunca vi uma torcida tão vibrante, tão apaixonada e tão entregue ao seu time de futebol. É certo que em algumas vezes essa cobrança por resultado a torna agressiva e fora do controle. Mas eu não me imaginava viver sem o Corinthians. Agradeço ao Andrés, que é meu irmão, e digo que continuarei ligado ao clube da maneira que ele quiser. Muitas vezes vocês vão me encontrar torcendo pelo Corinthians no estádio. Aproveito e peço desculpas publicamente pelo fracasso no trajeto da Libertadores.
Ao longo da carreira, ele balançou as redes 475 vezes, contando as passagens por Cruzeiro, PSV, Barcelona, Inter de Milão, Real Madrid, Milan, Corinthians e Seleção Brasileira. O Fenômeno foi também eleito três vezes o melhor jogador do mundo pela Fifa e deixa o futebol com o status de maior artilheiros das Copas do Mundo e com dois títulos da principal competição do planeta - em 1994 como reserva e em 2002 como estrela.
Já na condição de ex-jogador, o Fenômeno tem planejado o que fará da sua vida. Empresário, vai cuidar dos seus negócios. Em julho ele pretende reunir amigos para uma despedida oficial. E, em breve, anunciará a criação de um instituto social chamado "Criando Fenômenos". Acostumado a deixar para trás seus adversários, Ronaldo encerra sua carreira por causa de um obstáculo bem mais próximo, citado em uma frase emblemática:
- Perdi para o meu corpo.
Ronaldo comemora o título da Copa de 2002
(Foto: Ivo Gonzalez / O Globo)Duas vezes campeão do mundo com a seleção brasileira, três vezes melhor jogador de futebol do planeta, maior artilheiro da história das Copas... Ronaldo se despede dos campos, mas deixa seu nome escrito na história do esporte. O Fenômeno, que também ergueu taças no Brasil, na Espanha, na Holanda e na Itália, é um verdadeiro colecionador de glórias e títulos.
Revelado pelo São Cristóvão, do Rio de Janeiro, foi no Cruzeiro que Ronaldo começou a ganhar projeção. Estreou aos 16 anos e não precisou de muito tempo para chamar a atenção. Ainda como promessa das categorias de base, foi alçado ao time profissional em 1993. Mesmo não estando no elenco principal, ganhou naquele ano o seu primeiro título: a Copa do Brasil. Era só a primeira medalha que penduraria na vasta galeria. Em 1994, antes de fazer as malas e ir embora para a Europa, ganhou o Campeonato Mineiro, quando foi o goleador máximo da competição, marcando 21 gols.
Convocado por Carlos Alberto Parreira para a Copa do Mundo de 1994, integrou o elenco no Mundial dos Estados Unidos. Sequer entrou em campo, mas fez parte do grupo vencedor. E, querendo ou não, é um dos “tetras”.
Na carreira, foi campeão em quase todos os clubes em que jogou. Com exceção do Milan, sua última equipe na Europa, nas outras o Fenômeno está em algum pôster ou tem o nome em alguma faixa.
A primeira conquista em território estrangeiro foi em 1996. Com a camisa do PSV, ganhou a Copa da Holanda, o segundo torneio mais importante do país. No Barcelona foi campeão da Supercopa da Espanha, da Copa da Espanha e da Recopa Europeia. E, vestindo azul e grená, chegou ao topo do mundo, sendo eleito pela Fifa o melhor jogador de futebol da Terra, prêmio que voltaria a ganhar em 1997 (no Inter de Milão) e em 2002 (no Real Madrid).
Em 1997, como jogador do Inter de Milão, Ronaldo é eleito pela Fifa o melhor do mundo pela segunda vez (Foto: Reuters)No Inter, faturou a Copa da Uefa de 1998, antes de romper o tendão patelar do joelho esquerdo. A cirurgia o deixou fora de ação por cinco meses. Em 98 também teve chance de brilhar na Copa do Mundo da França, mas a decisão contra os donos da casa, não é a recordação que o atacante mais gosta de ter: derrota de 3 a 0 e um vice amargo.
Em 2002, após se recuperar de mais uma grave lesão, agora no joelho direito, o seu grande momento: dividindo os méritos com Rivaldo, Ronaldo foi um dos maiores nomes da Copa do Mundo organizada em conjunto por Coreia do Sul e Japão, o que lhe deu, de novo, o prêmio da Fifa. A final, quando fez os dois gols da vitória de 2 a 0 sobre a Alemanha, é uma das partidas mais memoráveis da sua gloriosa carreira. Foi também o artilheiro do torneio, com oito gols. Defendendo o Real Madrid, mais títulos para a coleção: Mundial (2002), Campeonato Espanhol (2003 e 2007) e Supercopa da Espanha 2007.
Ronaldo disputou sua quarta Copa do Mundo em 2006. Na Alemanha, não brilhou, não ganhou, mas registrou seu nome no livro dos recordes. Com os três gols que anotou, chegou a 15 e superou o alemão Gerd Muller para se tornar o maior artilheiro da história dos Mundiais.
O Milan, clube que defendeu entre 2007 e 2008, é o único em que o Fenômeno entrou e saiu sem gritar “é campeão” nenhuma vez. Jogou só 20 partidas e sofreu mais uma séria lesão no joelho. De novo, cirurgia, tratamento e a dúvida: será que ele volta?
Com o então presidente Lula, Andrés Sanches e Mano Menezes, Ronaldo festeja a Copa do Brasil de 2009 (Foto: Agência Estado)Voltou. Voltou ao seu país. Voltou a jogar. Voltou a ser campeão. Contratado pelo Corinthians no fim de 2008, foi o grande nome da reconstrução do Timão após o retorno à Série A do Campeonato Brasileiro. Títulos? Foram dois: Paulista e Copa do Brasil em 2009. Frustrações foram três: as duas Libertadores que deixou escapar e o Brasileirão do ano passado.
Ronaldo encerra a sua carreira nesta segunda-feira e provavelmente não tem mais lugar para pendurar medalhas ou exibir troféus nas prateleiras da sua casa.
Ele é um campeão! Ele é um Fenômeno!
Mas tal como a velocidade com que surpreendia os adversários, o Fenômeno mostrou, em todos esses períodos, a ambiguidade que o marcou. Nos mesmos clubes em que foi ídolo, acabou também contestado. Foi amado e odiado pelas mesmas torcidas. Na Seleção Brasileira, se foi bicampeão mundial, saiu como vilão em outras duas Copas - em 1998, a convulsão horas antes da final contra a França teria deixado o time atônito, e em 2006 os quilos e farras a mais na Suíça e na Alemanha teriam desarticulado a concentração em torno da disputa.
Após os sérios problemas com o joelho, especialmente no Inter e no Milan, foi considerado incapaz para a volta ao futebol. Seja por jornalista, seja também por médicos entrevistados. E se não bastassem os problemas dentro de campo, fora dele o craque mostrava vida de um pop star típico de anos 60. Naquele tempo, as palavras de "ordem" - na verdade, desordem - da rapaziada eram sexo, drogas e rock and roll. O roteiro da vida de Ronaldo daria um filme e tanto de uma figura polêmica: problemas com o peso, no casamento, acusações de envolvimento com travestis e drogas, discussões com ídolos e dirigentes, mau relacionamento com a imprensa.... O sucesso para Ronaldo não surgiu apenas em forma de glória.
Na Holanda, joelho começa a incomodar
O pênalti perdido, no entanto, não atrapalhou a carreira de Ronaldo. A primeira derrota serviu como lição. Mais gols despertaram o interesse do PSV Eindhoven, e o atacante acabaria trilhando, pouco antes de ser tetra em 1994, o caminho do grande herói daquele título - foi no rival do Ajax que Romário começou a brilhar na Europa. E não foi só nisso que Ronaldo seguiu Romário. A história pública – e polêmica – de Ronaldo com as mulheres começa junto com sua primeira escalação para a Seleção Brasileira.
Em 1994, a modelo Nádia França deixou seu trabalho no Brasil para acompanhar o namorado na Holanda. A mineira afirmou que engravidou do jogador, porém, a paternidade não foi reconhecida. Meses depois do fim do relacionamento, Nádia anunciou que sofreu um aborto espontâneo. Neste momento, Ronaldo já estava iniciando o namoro com a atriz Susana Werner, que, na época, atuava na novela adolescente “Malhação” - hoje, a atriz é casada com o goleiro da Seleção Brasileira, Julio Cesar.
Dentro de campo, Ronaldo marcava gols às pencas na Holanda - foram 67 em 71 partidas oficiais. Bateu Kluivert na artilharia do nacional, com 30 gols. Mas começou a ter problemas com o joelho. A primeira cirurgia foi em fevereiro de 1996, após uma ressonância magnética constatar inflamações nos joelhos, especialmente calcificação no direito, que passou por uma "raspagem" na cartilagem. Recomendado a se submeter a uma lenta recuperação, nem ele nem o comando do PSV tiveram paciência: logo, logo Ronaldo já estava de volta aos campos, só que no banco. E aí, surgiu o primeiro problema com treinador: o holandês Dick Advocaat começou a irritá-lo.
Fenômeno na chegada e saída do Barça
O Barcelona já estava de olho em Ronaldo, que desembarcou na capital catalã para virar o Fenômeno. Voltou a seguir a trilha de Romário, que já saíra do Barça para o Flamengo. Com a camisa azul-grená, Ronaldo começou a encantar o planeta. Fechou o ano de 1996 com 17 gols em 20 jogos. Acabou eleito o melhor jogador do mundo pela primeira vez. Levantou a Copa do Rei e a Recopa Europeia. Os golaços lhe renderam o apelido que levou por toda a vida. Mas não conseguiu o título espanhol e surpreendeu a apaixonada torcida ao trocar, de repente, o Barça pelo Inter de Milão, que pagou multa a rescisória de US$ 32 milhões. De ídolo, passou a odiado pela torcida que o consagrou.
No Inter, Ronaldo voltou a fazer gols sensacionais. Agora com a camisa 10 em vez da 9, marcou 14 gols em 19 partidas ao encerrar o ano de 1997. Voltou a ser eleito o melhor do mundo. Mas o título italiano não apareceu, apesar do bom desempenho - foi o vice-artilheiro, com 25 gols. Em compensação, faturou a Copa da Uefa.
O ano de 1998 tornou-se um pesadelo para Ronaldo. Maior esperança brasileira para faturar o hexa na França, o atacante era um dos destaques da campanha, junto com Rivaldo, até a final contra os donos da casa. Uma convulsão até hoje cercada de mistério e informações desencontradas horas antes da partida mexeu com o emocional do jogador e do time, que viu Ronaldo entrar em campo e cair estatelado no chão após uma dividida. Depois disso, é o que todo mundo lembra: Zidane comandou o passeio na vitória por 3 a 0 naquele 12 de junho, e Ronaldo passou a conviver com as acusações de "culpado" pela derrota.
acusações de traições (Foto: Reprodução)
No fim de 1999, foi realizado o primeiro casamento do Fenômeno e um fim que seguiu um padrão. A esposa era Milene Domingues, conhecida como Rainha das Embaixadinhas. Com ela, Ronaldo teve o primeiro filho, Ronald. E também surgiram as primeiras acusações de traições, mesmas alegações das modelos Raica de Oliveira e Daniela Cicarelli, com quem teve um casamento-relâmpago de apenas três meses, com cerimônia oficial de união realizada no Castelo de Chantilly, em Paris, no meio de especulações de briga entre a noiva e a ex, a também modelo Ellen Jabour, durante o evento.
chocaram o mundo pela TV (Foto: Reprodução)
Para quem acha que nada poderia ficar pior... A temporada de 2000 foi a mais dramática da carreira de Ronaldo. A conta não é de mentiroso: sete minutos foi o tempo que o Fenômeno ficou em campo naquele ano. Após cinco meses se recuperando da operação no joelho direito, ele entrou no segundo tempo contra o Lazio, na final da Copa da Itália, no dia 12 de abril. Depois de uma arrancada, o tendão não suportou e se rompeu. As imagens do lance mostradas na TV chocaram o mundo. Ronaldo foi obrigado a passar pela terceira cirurgia. Foram mais 15 meses longe dos campos.
Ronaldo passou mais tempo nas salas de fisioterapia. A recuperação da cirurgia no joelho foi cuidadosa. O atacante disputou três amistosos antes de entrar em um jogo oficial, contra o Brasov, pela Copa da Uefa. No total, foram 13 jogos e oito gols pelo Inter.
No ano do penta, mágoas dos torcedores do Inter
d'água para saída do Inter (Foto: Getty Images)
Mas, na Copa da Coreia e do Japão, o Fenômeno brilhou. Fez oito gols e foi a estrela do penta. E justamente no ano da redenção, pôs fim ao romance com o Inter. Em alta, não queria mais voltar ao clube. Brigou com o técnico argentino Héctor Cúper, sob a alegação de que o treinador o usava apenas em más condições físicas. No fim, foi negociado com o Real Madrid, que desembolsou 42 milhões de euros. O ano terminou com o título do Mundial de Clubes e o status de ser eleito o melhor do mundo pela terceira vez pela Fifa. Mas os torcedores do Inter jamais o perdoaram, achando que o jogador foi ingrato, mercenário, e teria agido como "fugitivo".
Vilão no Real e na Copa de 2006
Também no Real Madrid, Ronaldo oscilou: passou de ídolo a vilão. Ganhou a Supercopa da Espanha em 2003 e foi novamente o artilheiro da Liga, em 2004. Mas a lua de mel começaria a ruir. O clube havia formado o time de "galácticos", que fracassou na disputa dos títulos importantes no biênio 2003/2004, e daí para frente. Apesar de Ronaldo ter marcado 83 gols em 127 partidas disputadas, o relacionamento com a torcida estava abalado graças às lesões musculares e aos compromissos profissionais que não eram vistos com bons olhos pelos espanhóis, para quem faltava profissionalismo.
Em 2005, o atacante viu o "conto de fadas" com a apresentadora Daniella Cicarelli chegar ao fim. O luxuoso casamento no castelo da cidade de Chantilly, nos arredores de Paris, durou apenas três meses. No campo, o Real Madrid novamente decepcionou. Mais um ano sem títulos. E Ronaldo, símbolo da "Era Galácticos", foi visto como um dos culpados. O atacante passou a ser chamado de gordo. Estava dez quilos mais pesado em relação ao início da carreira devido ao trabalho de reforço muscular, essencial devido aos problemas no joelho. Na Seleção, enfrentou crise com Parreira ao pedir para ser dispensado da Copa das Confederações.
Brigas com Lula, Pelé e Platini
Na ocasião, Ronaldo começou a disparar sua metralhadora giratória para cima do então presidente Lula, que o chamara de gordo numa entrevista.
- Ele falou que eu estou gordo, todo mundo diz que ele bebe pra caramba. Tanto é mentira que eu estou gordo como deve ser mentira também que ele bebe pra caramba - afirmou Ronaldo, que depois, quando foi para o Corinthians, fez as pazes com o presidente.
Lula falou que estou gordo, todo mundo diz que ele bebe pra caramba..."
Ronaldo
Mas, tal como em 1998, Zizou saiu vitorioso. Além de dar drible de chapéu no Fenômeno, ajudou a eliminar o Brasil no triunfo dos "bleus" por 1 a 0, gol de Henry. Ronaldo acabou como um dos crucificados pelo fim do sonho do hexa, não sendo mais chamado para a Seleção. Recebeu críticas até do Rei do Futebol, durante evento para inaugurar o Festival do Esporte em Viena, na Áustria.
Pelé pediu desculpas logo depois, mas Ronaldo não escondeu a mágoa com o Rei do Futebol. Em entrevista ao jornal "O Globo", o camisa 9 partiu para o ataque.
- Estou triste com muitas pessoas que se mostravam amigas e agora estão quase me evitando. Mas realmente fiquei decepcionado com o Pelé. Ele é brasileiro, um ídolo nosso. Acho que foi um oportunista barato. As coisas estão complicadas, mas não esperava isso dele, de falar da minha vida pessoal. O Pelé tem família, tem os problemas dele para resolver, para se preocupar. Bem que podia me deixar em paz.
Corinthians, em 2009 (Foto: Divulgação / Joedson)
Curiosamente, foi na Copa da Alemanha que Ronaldo ultrapassou Pelé como o maior goleador brasileiro em Mundiais, ao marcar duas vezes contra o Japão. Mais do que isso, tornou-se o maior artilheiro das Copas, superando o alemão Gerd Mueller.
E foi diante de Pelé, em 2009, que Ronaldo viveu um de seus últimos grandes momentos no futebol. Em uma Vila Belmiro lotada, com Pelé na tribuna de honra, o Fenômeno fez dois gols antológicos na vitória por 3 a 1 sobre o Santos, e o Corinthians seria o campeão paulista daquele ano.
Decepção no Real e no Milan
Ao retornar ao Real Madrid, sentiu que, com a saída do presidente Florentino Pérez, começou a perder força no clube, que contratara o holandês Van Nistelrooy. O atacante manifestou logo o desejo de sair do Real por achar que não tinha apoio dos torcedores. Após vitória por 3 a 0 sobre o Alavés, ironicamente o adversário da sua estreia pelo clube merengue, ele foi vaiado no Santiago Bernabéu, o que nitidamente o incomodou. O atacante afirmou que não se sentia em casa no próprio estádio e não era tratado com carinho.
brasileiro no Real Madrid (Foto: Reuters)
Em janeiro de 2007, Ronaldo passou a negociar a sua transferência para o Milan, apesar de o Real relutar num primeiro instante. O clima para a permanência, no entanto, não era nada bom. O atacante não se entendia mais com o técnico italiano Fábio Capello. O excesso de noitadas e, novamente, os compromissos com patrocinadores acabaram selando o inevitável. O Fenômeno deixava a Espanha rumo à Itália, onde se apresentou ao Milan no dia 30 de janeiro. Deixou para trás os 104 gols marcados no Real e ressentimentos da torcida merengue.
O craque voltou a Milão para defender o Milan, rival do Inter, onde fora herói e vilão. por sete milhões e meio de euros. Naquela temporada, o Milan tinha poucas chances de vencer o Campeonato Italiano porque começara a competição com oito pontos a menos, como punição do envolvimento do clube no "Calciocaos" (escândalo de manipulação de resultados). E o pior: na Liga dos Campeões da Uefa, Ronaldo sequer pôde entrar em campo - já atuara pelo Real na competição.
Fora dos campos, voltou ao altar. Casou-se com Maria Beatriz Anthony e teve mais dois filhos, Maria Sophia e Maria Alice. Entre boatos de separações, os dois continuam juntos até o momento, apesar de, em 2010, o jogador ter assumido a paternidade de Alex, um menino de 5 anos, fruto de um rápido relacionamento com a garçonete Michelle Umezu, durante passagem do craque pelo Japão na pré-temporada do Real Madrid, em 2004.
Em boa fase na vida pessoal, Ronaldo viu o sonho acabar nos campos da Itália em 13 de fevereiro de 2008, na partida contra o Livorno. Após entrar no lugar de Gilardino, o Fenômeno, logo no primeiro lance, se lesionou seriamente na hora que deu um salto. Logo em seguida, saiu chorando. Ali, terminava sua breve aparição no Milan, que não quis mais renovar o contrato com o jogador. Foram nove gols marcados em 20 partidas.
Já casado com Bia Anthony, Ronaldo voltou ao Brasil e passou pelo momento mais difícil da carreira. Em abril de 2008, o jogador saiu de uma boate no Rio de Janeiro e, segundo admitiu em depoimento na delegacia, procurou serviços de uma prostituta na orla da Praia da Barra da Tijuca. No entanto, levou ao motel um travesti conhecido como “Andréia”, e garantiu que, ao perceber que a pessoa com quem estava não era uma mulher, teria desistido do programa.
O craque afirmou também que Andréia o teria ameaçado de extorsão para não revelar o episódio à imprensa. Na versão do travesti, no entanto, Ronaldo sabia que ele era um homem e, mesmo assim, pediu que convidasse mais duas amigas para o motel. Ainda segundo ele, houve consumo de drogas no local, que teriam sido trazidas a pedido do jogador.
Ronaldo negou uso de drogas e anabolizantes. Depois do episódio com o travesti - que foi acusado formalmente por extorsão contra o jogador e, no início de julho de 2009, morreu devido a uma meningite contraída na cidade de Mauá -, o jogador divulgou uma nota oficial à imprensa negando ser usuário de qualquer entorpecente.
- Diante dos últimos acontecimentos e com o objetivo de esclarecer, o atleta Ronaldo jamais foi usuário de drogas, não teve nenhuma queixa-crime registrada contra a sua pessoa e está sendo vítima de uma tentativa de extorsão. Ele agradece a decência da autoridade que preside o fato e, se necessário, tomará as atitudes cabíveis - escreveu no documento.
Coube ao próprio Ronaldo também afirmar que jamais usou anabolizantes durante sua carreira. A declaração aconteceu após o então coordenador do setor de dopagem da CBF, Bernardino Santi, ter dito que a lesão no joelho esquerdo do jogador poderia ter sido uma consequência de uso dos hormônios para ganhar massa muscular na época em que jogava pelo PSV, da Holanda. De acordo com o médico, demitido da instituição logo após a afirmação, em 2008, os músculos do atacante teriam crescido demais, além do que a musculatura poderia suportar.
A informação também consta na biografia não autorizada do Fenômeno, escrita pelo italiano Enzo Palladini, que chegou às livrarias em 2010. Ronaldo rebateu as acusações no Twitter:
- Quanto ao italiano, vale lembrar que desde do início da minha carreira já existe o exame antidoping. Quero ver falar e provar – escreveu.
Ira do Fla, glória e decepção no Timão
Ronaldo (Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com)
O início no Timão foi avassalador: decisivo no Paulista e na Copa do Brasil, entrou logo para a galeria dos heróis da Fiel. Mas a lua de mel durou apenas o primeiro semestre. Tudo começou a piorar quando fraturou a mão em julho de 2009, em um clássico com o Palmeiras. A partir daí, conviveu constantemente com lesões e com problemas de peso.
Ronaldo jamais voltou a ser o mesmo Sem a mobilidade de antes, iniciou 2010 se preparando para a Libertadores no ano do centenário. Outra decepção: após uma primeira fase impecável, o Timão encarou o Flamengo nas oitavas e foi eliminado precocemente. Ronaldo, então, viu de perto a primeira crise.
O clube tentou o título brasileiro, mas o Fenômeno, com várias lesões musculares e também uma no púbis, só jogou na reta final, já sem Mano Menezes, sem Adilson Batista e com Tite. O atacante pouco fez pelo time e junto dos companheiros viveu a frustração de perder um título nacional que estava nas mãos do clube. No início de 2011, a derrota para o Deportes Tolima foi a gota d'água para sofrer pressões e até ameaças de parte da torcida. No meio disso, um outro bate-boca, pelo Twitter, com Neto, ex-jogador, ídolo do Corinthians, aborreceu o atacante. Ele se defendia dos ataques afirmando que “jogava somente por amor” quando foi criticado por Neto.
- Se você (Ronaldo) fala que só joga por amor, abra mão do R$ 1,5 milhão por mês. Eu que nunca fui 1% de você, assinava contrato em branco. Eu jogava por amor. Casagrande, Sócrates, Wladimir, Rivelino, Viola jogavam por amor. Para de conversa fiada, vai! – escreveu Neto.
Ronaldo respondeu no mesmo tom:
- Não vou responder a ex-jogador aproveitador. Que vive até hoje com a imagem ligada ao clube, implorando para fazer evento em loja oficial. Muito menos para gente irresponsável que incentiva a violência e que cospe nos outros - disse o atacante, antes de baixar o pano e pôr fim a um carreira de glórias mas também cheia de polêmicas.
14/02/2011 02h27 - Atualizado em 14/02/2011 10h18
Após início pobre em Bento Ribeiro, Ronaldo conquista o mundo
Fenômeno cresceu no subúrbio do Rio de Janeiro jogando bola nas ruas e foi vendido pelo São Cristóvão por apenas 7,5 mil dólares para empresários
(Foto: Arquivo Pessoal)
Mais novo dos três filhos de Nélio, que era camelô, e Sônia, sorveteira, ele dormia no sofá. Teve uma infância pobre, embora não miserável. O nome surgiu por causa de uma homenagem feita ao médico Ronaldo Valente, que buscou Dona Sônia em casa no dia 18 de setembro de 1976 em um fusquinha e a levou para o hospital São Francisco Xavier, em Itaguaí, para o parto. O doutor foi também padrinho do atacante, que demorou para ser registrado... Seu Nélio perdeu o prazo e acabou falando que o filho tinha nascido no dia 22 de setembro - quatro dias depois da data verdadeira - para evitar a cobrança de uma multa no cartório de Cascadura.
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Era mais fácil encontrar Ronaldo jogando bola nas ruas de Bento Gonçalves do que nas salas de aulas no Colégio Nossa Senhora de Aparecida. Não era um bom aluno, não se sentia à vontade naquele ambiente acadêmico. Nas salas de aulas deixava de ser o garoto admirado pelo futebol apurado e passava a ser vítima de brincadeiras e piadas dos amigos por causa dos dentes incisivos abertos. Não demorou para ganhar o apelido de Mônica, famosa personagem das história de Maurício de Souza. Enquanto construia uma má reputação na escola, Ronaldo ganhava fama entre os peladeiros do bairro.- Venceu: uma carreira recheada de títulos, recordes e glórias
- Reinou: de craque digital a jogador-celebridade, um ícone mundial
- Caiu: um Fenômeno também em colecionar adversidades
- Levantou: Ronaldo e superação caminham lado a lado
- Parou: aos 34 anos, Ronaldo anuncia seu adeus ao futebol nesta segunda-feira
Não demorou para baterem na porta da casa número 114 da rua General César Obino. Ronaldo recebeu um convite para virar sócio-atleta do Valqueire Tênis Clube. Não havia vaga no time mirim. Acabou virando goleiro. Não deu certo. O time estava em último lugar no Campeonato Carioca de futebol de salão. O técnico Marquinhos resolveu, então, radicalizar. Conhecendo a fama de "Dadado", resolveu colocá-lo em uma partida no ataque. Resultado: Ronaldo fez quatro gols na vitória por 5 a 4 em cima do Vasco, então líder da competição.
A vontade e a determinação fizeram Ronaldo descobrir o dia e a hora de uma peneira. Pegou dois ônibus até chegar à Gávea e fazer o teste com outros 400 garotos. Passou. Mas não tinha como pagar o transporte para ir treinar todos os dias. E não conseguiu ajuda no Flamengo. Precisou desistir da ideia. Acabou, então, em São Cristóvão. Um convênio com o Social Ramos levou o atacante aos primeiros treinos no clube. O técnico Roberto Gaglianone logo percebeu que havia ali um jogador diferenciado. Conseguiu, então, que o diretor Ary de Sá pagasse o trem de Bento Ribeiro até a Central.
No dia 12 de agosto de 1990, Ronaldo fez seu primeiro jogo pelo mirim do São Cristóvão. E marcou três gols na vitória por 5 a 2 sobre o Tomazinho. No total, foram oito gols em 12 jogos naquele ano.
Foram dois anos e meio jogando nas divisões de base do São Cristóvão, onde marcou 44 gols em 73 jogos. Em 1993, Ronaldo foi convocado para disputar o Sul-Americano sub-17 com a seleção brasileira. Apesar do fracasso - o Brasil terminou em quarto lugar e ficou fora do Campeonato Mundial da categoria pela primeira e única vez da história - o atacante se salvou e foi o artilheiro da competição com oito gols. Motivo suficiente para chamar a atenção do Cruzeiro.
Pouco tempo depois, o atacante desembarcava em Belo Horizonte para começar a brilhar. O time mineiro aceitou pagar US$ 50 mil por 55% dos direitos econômicos do jogador. Era conhecido ainda apenas como "Ronaldo Luís".
Quando o Cruzeiro avançou para a fase semifinal da Copa do Brasil, o técnico Pinheiro poupou os titulares e escalou um mistão para as partidas do Campeonato Mineiro. Ronaldo passou a ser relacionado. Foi escalado como titular contra a Caldense e fez sua estreia entre os profissionais aos 16 anos no dia 25 de maio de 1993, em Poços de Caldas, na vitória por 1 a 0 sobre a Caldense.
Aos 16 anos, Ronaldo fez sua estreia no futebol profissional. Foi no dia 25 de maio de 1993, pelo Campeonato Mineiro. Mesmo quando não era relacionado para as partidas, Ronaldo se concentrava com o time principal. E acompanhou a delegação do time à Porto Alegre, onde ocorreria a decisão da Copa do Brasil contra o Grêmio. Em agosto, viajou para disputar amistosos na Europa. Fez o primeiro gol como profissional em cima do Belenenses.
Voltou da excursão por Portugal despertando interesses de dirigentes italianos. O Cruzeiro recebeu a primeira sondagem do Inter de Milão, recusada mesmo com proposta de 500 mil dólares (o que significava uma valorização de 1.000% em cinco meses). Preferiu apostar na revelação. Deu certo. Era o início de uma carreira de glórias... Em pouco tempo, Ronaldo teria o mundo às suas mãos, conquistaria títulos, seria eleito três vezes o melhor jogador do mundo pela Fifa, viraria o ícone de uma geração...
14/02/2011 02h19 - Atualizado em 14/02/2011 10h23
A arte de tentar outra vez: Ronaldo
e superação caminham lado a lado
Título da Copa de 2002 depois da convulsão em 1998 e da cirurgia no joelho direito em 2000 foi o auge de uma história repleta de reviravoltas
O momento mais sublime da carreira de Ronaldo - os braços abertos depois de vencer o alemão Oliver Kahn pela segunda vez na decisão da Copa do Mundo de 2002 (veja o vídeo acima) - parecia obra de ficção para quem em abril de 2000 chocou o mundo ao desmoronar no gramado do estádio Olímpico de Roma. O tendão patelar do joelho direito estava escancaradamente rompido. A imagem era forte, e o grito de desespero com a camisa do Inter de Milão contra o Lazio, pela final da Copa do Rei, não deixava dúvidas do tamanho da dor. Parecia o fim.
Ronaldo ficou um ano e três meses parado e só voltou a jogar pela Seleção na vitória por 1 a 0 sobre a Islândia. O amistoso no Castelão, em Fortaleza, foi no dia 27 de março de 2002, menos de três meses antes da estreia na Copa. O atacante só fez mais três jogos com a camisa do Brasil até o gol contra a Turquia, o primeiro da vitória por 2 a 1 no início da caminhada rumo ao penta - enfrentou Portugal (1 a 1) e os "gigantes" Catalunha (3 a 1) e Malásia (4 a 1). Parecia loucura confiar no camisa 9. Felipão apostou alto e riu por último. Viu Ronaldo marcar oito gols na trajetória do título.
A superação de 2002 também aliviou a dor da derrota para a França em 98, depois de sofrer uma convulsão no dia da final. E se torna ainda mais surpreendente se levado em conta que a lesão de 2000 já era a terceira no joelho direito.
Ronaldo se machucou no local pela primeira vez em 1996. Quando jogava pelo PSV, passou por uma cirurgia para raspagem da cartilagem do tendão. Ficou quatro meses parado. Em 1999, já pelo Inter de Milão, rompeu parte do tendão patelar em um jogo contra o Lecce, pelo Campeonato Italiano. Passou cinco meses afastado dos campos e voltou justamente no fatídico confronto com o Lazio.
Além do drama do joelho direito, Ronaldo ainda teria mais duas operações na carreira. Em 2006, quando defendia o Real Madrid, veio ao Brasil para realizar uma cirurgia de raspagem de duas calcificações no osso da tíbia da perna esquerda. Ficou um mês e meio parado. Em 2008, um pesadelo similar ao de 2000: pelo Milan, mais uma lesão de tendão patelar, desta vez no joelho esquerdo.
Na época da cirurgia de 2008, em entrevista à repórter Sônia Bridi, Ronaldo cogitava parar de jogar. Mas dizia que a vontade de mais uma volta por cima era maior.
- Acredito em destino. Acredito que eu esteja aqui para cumprir uma missão. E talvez a minha missão seja essa. Mostrar para pessoas que não têm problemas e que vivem reclamando da vida, de coisas mínimas. Mostrar para o mundo que qualquer que seja o problema a pessoa tem que acreditar e se superar.
Foi apenas o primeiro capítulo de um semestre de títulos paulista e da Copa do Brasil. No primeiro, foram oito gols em dez jogos, com direito a uma pintura na primeira partida da decisão contra o Santos, encobrindo Fábio Costa na vitória por 3 a 1, na Vila Belmiro. Na competição nacional, fez um dos gols da vitória por 2 a 0 sobre o Inter na primeira partida da decisão, no Pacaembu. No jogo de volta, deu passe para gol de André Santos no empate em 2 a 2.
Faltava a Libertadores, obsessão dos corintianos. Em 2010, Ronaldo até fez gol, mas o time não conseguiu superar o Flamengo. Neste ano, o atacante fracassou contra o Tolima. Uma famosa peça publicitária de 2003 mostrava a volta por cima de Ronaldo como símbolo da campanha do governo com o slogan "brasileiro não desiste nunca". A música tema era "Tente outra vez", na voz de Raul Seixas. Ronaldo ainda tem dois pés para cruzar a ponte, mas o peso já não comporta mais tentativas. Ele já tentou mais do que o suficiente.
14/02/2011 13h23 - Atualizado em 14/02/2011 17h23
Emocionado, Ronaldo atribui adeus às dores e ao hipotireoidismo
Aos 34 anos, Fenômeno decide encerrar a carreira alegando não aguentar mais os problemas no corpo. Foram 475 gols como profissional, desde 1993
- Estou aqui para falar que estou encerrando a carreira como jogador profissional. E dizer que essa carreira foi linda, maravilhosa e emocionante - declarou Ronaldo, ao abrir o seu emocionante pronunciamento.
Em uma concorrida entrevista coletiva no CT Joaquim Grava, em São Paulo, o craque comunicou, exatamente às 13h02m, que não continuará atuando pelo Corinthians, clube com o qual tinha contrato até 31 de dezembro de 2011. Ronaldo assombrou o planeta aliando velocidade e técnica de forma nunca vista antes, mas sucumbiu ao tempo e ao próprio corpo. Agora, se dedicará à família, à vida de empresário, a um projeto social e à fortuna que acumulou sendo um gênio da bola.
Ronaldo chegou ao centro de treinamento às 10h30m, acompanhado de dois dos seus quatro filhos - Ronald e Alex. Vestido com traje casual, caminhou até o gramado onde os outros jogadores treinavam e parou a atividade. Por cerca de cinco minutos, discursou para companheiros, membros da comissão técnica e diretoria. No fim, todos o aplaudiram de pé e o abraçaram em uma cena comovente, que representa bem o respeito que todos têm por ele.
Ao explicar os motivos por ter antecipado o seu adeus, Ronaldo justificou usando dois fatores: o hipotireoidismo e as constantes dores.
- Todos sabem do meu histórico de lesões. Tenho tido, nos últimos anos, uma sequência de lesões que vão de um lado para o outro, de uma perna para a outra, de um músculo para o outro. Essas dores me fizeram antecipar o fim da minha carreira. Além disso, há quatro anos eu descobri, quando estava no Milan, que sofria de hipotireoidismo. É um distúrbio que desacelera o metabolismo e que, para controlá-lo, é necessário tomar alguns hormônios proibidos no futebol, por poder acusar doping. Imagino que muitos devam estar arrependidos por terem feito chacota sobre o meu peso, mas eu não guardo mágoa de ninguém.
galeria de fotos
O pronunciamento, que durou 45 minutos, foi recheado de emoção. Por diversas vezes, o craque precisou parar de falar para se concentrar e segurar as lágrimas. Várias partes do seu discurso foram pausadas, com interrupções para que pudesse respirar mais fundo. Num papel ele trazia algumas palavras que ensaiou em casa na noite passada, mas teve muita dificuldade em seguir o script. Ronaldo não conseguiu... e chorou.(Foto: Marcos Ribolli/GLOBOESPORTE.COM)
Não me imaginava viver sem o Corinthians"
Ronaldo
Para se distrair e tentar não deixar as lágrimas escorrerem, Ronaldo rabiscava um pedaço de papel, postava comentários no Twitter e brincava com os filhos, que estavam sentados numa cadeira ao lado. Alex, o caçula de 5 anos, chegou a se esconder embaixo da bancada, arrancando risadas do pai. Como prometido, o Corinthians teve um capítulo especial na hora do seu adeus.
- Tudo começou com um café da manhã com o presidente Andrés Sanches no Rio de Janeiro. Acreditei no projeto, demos um aperto de mão e eu falei para ele "pode trazer o contrato que eu assino até em branco se precisar".
(Foto: Marcos Ribolli / GLOBOESPORTE.COM)
Muitos devem estar arrependidos por fazer chacota sobre o meu peso. Tenho hipotireoidismoe preciso tomar um hormônio que é proibido no futebol "
Ronaldo
A perda de duas Libertadores, 2010 e 2011, foram os seus piores momentos. A última, inclusive, culminou numa reação violenta de parte da torcida. No retorno da Colômbia, onde o time foi eliminado ainda na primeira fase, o ônibus da delegação foi apedrejado, os atletas foram insultados e os muros do clube acabaram pichados. Ronaldo, claro, foi o principal alvo.
- Tenho de fazer meu agredecimento a todos os brasileiros que choraram comigo quando eu chorei e que caíram comigo quando eu caí. Mas, dessa torcida brasileira toda, eu quero agradecer a do Corinthians. Nunca vi uma torcida tão vibrante, tão apaixonada e tão entregue ao seu time de futebol. É certo que em algumas vezes essa cobrança por resultado a torna agressiva e fora do controle. Mas eu não me imaginava viver sem o Corinthians. Agradeço ao Andrés, que é meu irmão, e digo que continuarei ligado ao clube da maneira que ele quiser. Muitas vezes vocês vão me encontrar torcendo pelo Corinthians no estádio. Aproveito e peço desculpas publicamente pelo fracasso no trajeto da Libertadores.
Ao longo da carreira, ele balançou as redes 475 vezes, contando as passagens por Cruzeiro, PSV, Barcelona, Inter de Milão, Real Madrid, Milan, Corinthians e Seleção Brasileira. O Fenômeno foi também eleito três vezes o melhor jogador do mundo pela Fifa e deixa o futebol com o status de maior artilheiros das Copas do Mundo e com dois títulos da principal competição do planeta - em 1994 como reserva e em 2002 como estrela.
Já na condição de ex-jogador, o Fenômeno tem planejado o que fará da sua vida. Empresário, vai cuidar dos seus negócios. Em julho ele pretende reunir amigos para uma despedida oficial. E, em breve, anunciará a criação de um instituto social chamado "Criando Fenômenos". Acostumado a deixar para trás seus adversários, Ronaldo encerra sua carreira por causa de um obstáculo bem mais próximo, citado em uma frase emblemática:
- Perdi para o meu corpo.
13/02/2011 22h44 - Atualizado em 14/02/2011 10h20
Ronaldo: uma carreira recheada de títulos, recordes e glórias
Dos sete clubes que defendeu, Ronaldo foi campeão em seis. Na seleção, duas Copas e o maior goleador da história. E três vezes melhor do planeta...
(Foto: Ivo Gonzalez / O Globo)
Revelado pelo São Cristóvão, do Rio de Janeiro, foi no Cruzeiro que Ronaldo começou a ganhar projeção. Estreou aos 16 anos e não precisou de muito tempo para chamar a atenção. Ainda como promessa das categorias de base, foi alçado ao time profissional em 1993. Mesmo não estando no elenco principal, ganhou naquele ano o seu primeiro título: a Copa do Brasil. Era só a primeira medalha que penduraria na vasta galeria. Em 1994, antes de fazer as malas e ir embora para a Europa, ganhou o Campeonato Mineiro, quando foi o goleador máximo da competição, marcando 21 gols.
Convocado por Carlos Alberto Parreira para a Copa do Mundo de 1994, integrou o elenco no Mundial dos Estados Unidos. Sequer entrou em campo, mas fez parte do grupo vencedor. E, querendo ou não, é um dos “tetras”.
Na carreira, foi campeão em quase todos os clubes em que jogou. Com exceção do Milan, sua última equipe na Europa, nas outras o Fenômeno está em algum pôster ou tem o nome em alguma faixa.
A primeira conquista em território estrangeiro foi em 1996. Com a camisa do PSV, ganhou a Copa da Holanda, o segundo torneio mais importante do país. No Barcelona foi campeão da Supercopa da Espanha, da Copa da Espanha e da Recopa Europeia. E, vestindo azul e grená, chegou ao topo do mundo, sendo eleito pela Fifa o melhor jogador de futebol da Terra, prêmio que voltaria a ganhar em 1997 (no Inter de Milão) e em 2002 (no Real Madrid).
Em 2002, após se recuperar de mais uma grave lesão, agora no joelho direito, o seu grande momento: dividindo os méritos com Rivaldo, Ronaldo foi um dos maiores nomes da Copa do Mundo organizada em conjunto por Coreia do Sul e Japão, o que lhe deu, de novo, o prêmio da Fifa. A final, quando fez os dois gols da vitória de 2 a 0 sobre a Alemanha, é uma das partidas mais memoráveis da sua gloriosa carreira. Foi também o artilheiro do torneio, com oito gols. Defendendo o Real Madrid, mais títulos para a coleção: Mundial (2002), Campeonato Espanhol (2003 e 2007) e Supercopa da Espanha 2007.
Ronaldo disputou sua quarta Copa do Mundo em 2006. Na Alemanha, não brilhou, não ganhou, mas registrou seu nome no livro dos recordes. Com os três gols que anotou, chegou a 15 e superou o alemão Gerd Muller para se tornar o maior artilheiro da história dos Mundiais.
O Milan, clube que defendeu entre 2007 e 2008, é o único em que o Fenômeno entrou e saiu sem gritar “é campeão” nenhuma vez. Jogou só 20 partidas e sofreu mais uma séria lesão no joelho. De novo, cirurgia, tratamento e a dúvida: será que ele volta?
Ronaldo encerra a sua carreira nesta segunda-feira e provavelmente não tem mais lugar para pendurar medalhas ou exibir troféus nas prateleiras da sua casa.
Ele é um campeão! Ele é um Fenômeno!
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